sábado, 10 de outubro de 2009

Nós e a comida

Uma das coisas mais difíceis para quem está fazendo dieta com certeza é a comida. Comigo não é diferente. Parece instantâneo, você decide fazer dieta e as tentações aparecem. As comidas com sabor de infância que você não come há séculos chegam que nem a serpente no paraíso de Adão. É aquele seu amigo comendo um crepe de chocolate, aquela aluna abrindo um pacote do seu bis favorito e repartindo com a turma, ou uma lasanha deliciosa para a qual você tem que dizer não. E nós entendemos bem a dor do não. Uma palavra tão pequena, tão fácil de falar, como pode ser assim sofrida?

As pessoas não oferecem as mais variadas gostosuras simplesmente porque querem que a sua dieta vá para o brejo. Elas só estão sendo legais, educadas, eu diria, por mais difícil que seja apreciar isso na hora do sonoro ‘você quer?’. É como se o tempo desse uma parada e tudo fosse um filme do Almodóvar. A cor da comida é berrante. O chocolate não é só preto, é negro, quase um pedaço de petróleo doce; O molho de tomate cor de sangue entra em sintonia com o sangue do seu próprio corpo, te pedindo para entrar no seu estômago e tudo virar uma coisa só. Assim como nos filmes do espanhol, a gente dá aquele close na comida, aquele close na castanha de caju que, em um primeiro momento, você nem sabe para o que olha, só sabe que quer, que não consegue deixar de olhar, que te incomoda.

A gente acaba criando táticas para não sofrer tanto (leia para não ficar babando enquanto as outras pessoas estão comendo tudo o que você não pode comer). A minha pode soar meio masoquista, mas por enquanto dá certo. Quando estou com muita vontade de comer aquilo que as pessoas me oferecem, eu aceito um pedacinho bem pequeno. Aquele biscoitinho delicioso de queijo? Apenas 1. O crepe de chocolate com chantilly e castanhas? Um quadradinho que deveria ter uns 4X2 cm. O bis de amendoim? Para esse eu consegui, gentilmente, dizer não. O problema é que a maioria que está na luta contra os quilos a menos não consegue ficar no primeiro pedaço, ou só com um biscoitinho. É aí que vem o sentimento que melhor traduz o que é uma dieta: culpa.

A motivação inicial do regime é a culpa. Culpa por se olhar no espelho e ver que o seu corpo não está do jeito que você quer e, por saber que você e apenas você é o único responsável por isso. Na vida a gente sempre tenta colocar a culpa em outras pessoas, deve ser um processo natural do ser humano para a gente se sentir melhor. Quem nunca ouviu ou presenciou e se identificou com alguém dizendo “ Eu não sou ciumento , o outro é quem dá mole.” “Eu trabalho direito, o meu chefe que não reconhece.” “Cheguei atrasado por causa daquela gente toda no metrô que se enfiou na minha frente.Eu não tive culpa!- deve ser o grito de guerra da modernidade. Podemos colocar a culpa de quase tudo nas outras pessoas, mas ninguém pode dizer que alguém lhe empurrou comida goela abaixo. Bom, a não ser que você tenha sido raptado por aquela quadrilha de seqüestradores que, ao invés de manter a vítima a pão e água, obriga os pobres seqüestrados a comer coxinhas de frango, bolinhos, flans e queijadinhas. Nãao se pode atribuir aos outros a culpa pelo que o espelho insiste em te mostrar (e pelo que você insiste evitar ver).

A culpa está longe de ficar só no início da dieta. É aí que eu volto ao que tinha comentado antes sobre algumas pessoas não conseguirem ficar no primeiro pedaço, no primeiro biscoito. Depois de comer é a hora de sentir culpa por ter comido. Essa talvez seja pior do que a primeira culpa da qual eu falei, essa faz você se sentir um lixo. Eu não entendo como a comida pode trazer a nítida sensação de sujeira, a sensação de que você mergulhou no esgoto e ficou horas lá, chafurdando na porcaria.

Afortunadamente, a segunda culpa que faz parte de todo o processo da dieta eu ainda não senti (dessa vez, nessa dieta). Vamos ver quanto tempo eu vou conseguir resistir à culpa.
Força para nós.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A decisão

Dizem que a primavera é a estação das renovações. Hora de arrumar a casa, limpar os armários, enfim, dar um jeito naquilo que não presta mais. Pois é, na primavera eu decidi dar um jeito no meu corpo. É chegada a hora daquela palavrinha que a gente odeia: dieta.

Sabe quando você tem certeza de que precisa fazer dieta? Quando a sua mãe diz que você precisa. Caso a sua mãe não seja daquelas sempre falam que você precisa de uns quilos a menos (sim, porque essas vão falar mesmo que você esteja um palito ambulante), dê crédito ao que ela fala, mas dê mais crédito ao que ela não fala, ao que ela sinaliza. O fato é que minha mãe sempre foi normal nesse sentido, nunca tinha me falado para perder peso. Na verdade, hoje em dia ela até desconversa, diz que nunca falou nada. Pois bem, estava eu um dia no computador jogado na cadeira e ela disse ‘nossa, como você está barrigudo!’. Muitas vezes o sinal materno da dieta não vem em forma de ‘você precisa comer menos’. Geralmente ele acontece com um singelo “chega pra lá, não vou caber no sofá com você aí”ou “você ta magro, só tá um pouquinho cheinho”.

Os que não me conhecem devem estar achando que sou um obeso mórbido. Vou logo avisando que não sou, mas adoro fazer um drama. Eu tenho exatamente 71 quilos e 300 gramas distribuídos em 1 metro e 72 centímetros de altura. Acho que a proporção em si nem soa tão mal. O problema sou eu e o meu amiguinho, um com quem eu tenho uma relação de anos pautada no amor e no ódio: o espelho.Talvez eu nem precise de uma dieta como a que eu estou fazendo. Talvez eu esteja exagerando. Pelo menos é isso que as pessoas mais próximas dizem. Eu as ouço? Não.

Muitos de vocês ainda estão se perguntando a razão de tudo. Dessa dieta, desse blog... Como dizem os professores de história, para entender o presente é preciso dar uma olhadinha no passado. Vou tentar situar vocês brevemente.

Forte eu nunca fui, não no sentido de ser grande, um corpo volumoso. Já força, hehe... Posso dizer que na academia em que eu malhava as pessoas não gostavam muito da hora em que eu ia fazer alguns exercícios de perna, por exemplo. Não que elas tivessem inveja da quantidade de peso com a qual eu conseguia me exercitar, elas não gostavam porque sobravam poucas anilhas para elas, eu usava a maioria. Nos braços e peito nunca tive muita força. Conseguia levantar o peso esperado para um homem que treina há um tempo razoável e só. Estava longe do que os meus amigos super fortes da época conseguiam levantar. As minhas pernas eram monstruosas de fortes. Repito, nunca fui grande. Era uma pessoa que você olhava e sabia que treinava só de olhar, mas só de olhar era impossível saber o quanto do meu tempo, da minha dedicação, disciplina e do meu dinheiro eu gastava com o meu corpo. Por que então eu nunca fiquei bem grande, pelo menos do jeito que eu queria? Talvez por uma sucessão de erros na alimentação, por uma sucessão de lesões (dois joelhos, pulsos e músculo da panturrilha esquerda lesionados) ou simplesmente por uma genética que não favorece que eu me torne um The Rock. Como todo mundo, eu não estava satisfeito com o corpo que eu tinha. Hoje tudo o que eu queria era voltar no tempo e voltar a ter o meu corpo de 2007/início de 2008. Difícil admitir, mas eu era o que se pode chamar de rato de academia.

Parar de treinar sério foi com certeza uma das piores coisas que eu fiz na vida. Eu não sei como e nem quando exatamente isso aconteceu. Comecei a ir cada vez menos, me mudei, mudei de academia, mudei o meu círculo social. Eu não larguei o esporte logo e cara. Fui ficando mais indisciplinado, mais relaxado aos poucos. Tudo começa com aquele dia chuvoso em que você está com preguiça e não vai malhar. Depois, aquela semana agitada e você deixa de malhar. Quando você começa a pensar que ‘volta a malhar mês que vem’, aí, meu amigo, você já abandonou o treino há muito tempo. Nesse sentido, o nosso corpo e o tempo são cruéis. Você abandona os treinos e eles te abandonam, simples assim.

Voltar a fazer algo de verdade pelo meu corpo foi uma decisão que eu adiei muito tempo. Estamos em outubro e eu não espero milagres. O meu primeiro objetivo é perder essa gordura que, se por um lado enche as minhas roupas tão carentes de músculos, por outro não poderia ser mais pavorosa. Quero me livrar desse excesso o mais rápido possível. No momento, o temido tecido adiposo é o que mais me incomoda, mais até do que a falta dos músculos no passado tão desenvolvidos.

Tenho uma opinião muito negativa sobre os nutricionistas. Após alguns anos, percebo que a maioria não sabe de nada. É muita presunção minha achar que eu posso acertar mais do que um médico? É. Você liga pra isso? Eu não.

O meu objetivo nesse blog é compartilhar uma experiência que, creio eu, ser comum e universal: a sofreguidão de uma dieta. Não pretendo passar listas de calorias, exercícios, dizendo o que os outros devem ou não comer. Sobre a minha dieta, eu falo de cara que não é nada de outro mundo super-hiper-mega-radical-revolucionário. Eu não passo fome. É o seguinte: sem refrigerante de qualquer espécie (mesmo light – eles contém sódio, que nos fazem reter líquidos), sem doces, sem carboidrato de QUALQUER espécie depois das 6 e fugindo de fritura, embora eu não tenha e saiba que nesse momento não vou parar de comer coisas fritas. E claro, muita água. Se a garganta permitir, muita água gelada (o corpo queima calorias para deixar a água na temperatura ambiente, pelo menos foi o que eu li). A verdade é que, para fechar o pacote, eu sou muito chato para comer e cortar totalmente fritura da minha vida nesse momento seria uma sentença de fome. E eu não quero passar fome. É no auge da fome que a gente comete o pior dos pecados capitais para quem está de dieta: a gula. Muitas das pessoas que fazem dietas são ansiosas. Eu sou um compulsivo de carteirinha. Sei dos meus limites, até onde eu posso ir agora. Quais são os seus limites?

Exercícios. Sim, eu voltei para a academia. Uma academia mais modesta, que atende melhor às minhas condições financeiras atuais. É uma academia que me lembra um pouco a primeira em que eu malhei e onde consegui tantos resultados. Estou otimista.

Encerro esse primeiro contato por aqui. Comentários são bem vindos. Quero trocar experiências, angústias, inseguranças, suor e satisfação com vocês. Quero olhar e saber que eu não estou sozinho nessa e que o bicho não tem sete cabeças como parece.

Força para nós.